sexta-feira, 14 de setembro de 2012

"Tudo que o Céu Permite" sob a simbologia do veado

Que diabos de título é esse, né?

Tudo que o Céu Permite (All That Heaven Allows, 1955) é um melodrama de Douglas Sirk, aquele alemão de alma mexicana, com Jane Wyman (Cary) e Rock Hudson (Ron), o casal que vive um romance indesejado numa fictícia cidadezinha do subúrbio americano, Stoningham.


Cary, na imaginária Stoningham.

Anos 50, a Segunda Guerra já tinha passado e a Guerra do Vietnã ainda não chegara pra destruir aura do "sonho americano", ou seja, o puritanismo e a conservação das aparências estavam a todo vapor.
Cary é uma viúva rica que não gosta muito de se conglomerar com "a gente do clube" e se envolve com Ron, o jardineiro de espírito livre (e bem mais jovem) que vive numa estufa de plantas. 


Olá, Rock Hudson ;)

No primeiro momento, ela tenta manter o romance em segredo, limitando-se a encontrar-se com ele no velho moinho ou na casa dos amigos dele, mas a evolução do envolvimento leva Ron a pedi-la em casamento. Ela hesita, cita a reação dos filhos e diz não, mas seu sentimento por ele a faz aceitar. Imagina o bafão provocado na cidade e nas cabecinhas provincianas quando o relacionamento vira o assunto do momento. A rica sociedade se esbalda no apontar-de-dedos e se refere aos dois sempre com um tonzinho irritante de ironia. Como bem diz Sara, a melhor amiga de Cary: "Situações como essa revelam o lado mais odioso da natureza humana"A viúva quer arrastar o plantador de árvores pro seu mundo, fazendo com que ele seja aceito. Ele concorda, mas não quer isso realmente, pois não busca aprovação de ninguém e nem se importa com o que dizem. Pra ajudar, os filhos dela, que só voltam pra casa no fim de semana (se não têm nada melhor pra fazer), fazem um alarde tremendo, bateção de pé e chantagem, fazendo a preocupada mãe sentir-se culpada pela possível infelicidade dos dois mimados.
O diretor teve um cuidado estético primoroso com a película e ela é toda permeada de símbolos (conscientemente ou não). De todos os símbolos usados no filme, um que me chamou muito a atenção foi o veado (ou cervo; ou corça, sua fêmea). 

Ele aparece apenas duas vezes: a primeira é no intervalo entre uma briga e uma reconciliação (selada com um subentendido sexo). O veado está comendo de um balde de madeira e rapidamente sai correndo, arredio. 

Veado fofo comendo do balde e logo depois sai correndo.

A segunda é no fim do filme, quando se aproxima da janela da sala em que Ron está deitado e fica. E é com a imagem do animal que o filme termina. 

O veadinho se aproxima da janela e fica.

Na minha cabeça podre, veio logo a correlação: veado X Rock Hudson, rá, entendi, Douglas Sirk. Mas aí me perguntei se a ligação desse animal com a homossexualidade é feita fora do Brasil (o Google me disse que não, não é) e passei a encarar a aparição do animal de outra maneira. Assim, o veado poderia representar Cary, que quer estar com Ron ao mesmo tempo que foge, com medo (de se envolver demais, de ser enganada por um homem mais novo, da reação dos filhos, da desaprovação da sociedade) e por fim, se aproxima, observa calmamente a situação e não se assusta, não foge.


Primeira tentativa de associação: Cary = veado

A partir daí, fui pesquisar sua simbologia. De acordo com o Dicionário de Símbolos na Arte, os veados são representados bebendo água de fontes da vida, na arte cristã, fazendo referência ao Salmo 42:

"Como a corça bramindo
por águas correntes,
assim minha alma brame
por ti, ó meu Deus!

Minha alma tem sede de Deus,
do Deus vivo:
quando voltarei a ver
a face de Deus?"

Dentro desse Salmo, destaquei algumas frases que me remeteram à situação do filme:

"Por que devo andar pesaroso
pela opressão do inimigo?"

"Esmigalhando-me os ossos
meus opressores me insultam"

"Por que te curvas, ó minha alma,
gemendo dentro de mim?"

Como ando lendo bastante sobre a origem da Cristandade e tals, uma ligação tomou forma: os Salmos foram compostos, em sua maioria, durante o exílio do povo hebreu (judeu) na Babilônia, quando Jerusalém foi tomada pelos babilônicos. Douglas Sirk, nascido na Alemanha, teve que se refugiar de lá com sua segunda esposa, judia, depois que a primeira esposa dele os denunciou (ela virou nazista e o filho que tiveram juntos - com o qual ele perdeu totalmente o contato - morreu na Segunda Guerra, combatendo do lado germânico). O diretor provavelmente estava familiarizado com situações de desejo de liberdade e preconceito, tanto por ser um estrangeiro refugiado em Hollywood, quanto por ser casado com uma judia.

O animal também simboliza a fertilidade, a força, o renascimento e a renovação cíclica dentro de várias religiões (cristã, muçulmana, altaica, maia) e, segundo uma canção dos índios norte-americanos pawnee, é quem carrega a luz que guia em direção à claridade do dia:

"Nós chamamos as crianças,
Nós lhes dizemos que devem acordar
Nós dizemos às crianças que todos os animais já estão acordados
Elas saem das moradas onde dormiram
O cervo as guia
Ele vem das matas onde mora, trazendo seus filhotes para a Luz do Dia
Nossos corações estão jubilosos"


Em Nara, no Japão, os cervos e corças vivem livres e sem temor (eles geralmente são tímidos e arredios), evocando um retorno à pureza primordial, em que a proximidade a animais selvagens é admitida.

Dito isto, consegui fazer uma outra associação. A certa altura da história, Cary está na casa de um casal de amigos de Ron, lê o trecho de um livro:

Amor!

Rá! Nada mais, nada menos que Walden, do Thoreau. (Se não souber do que se trata, o Wikipedia te dá uma ideia). Quer mais que isso pra representar o retorno à natureza? E aí quando Cary diz que achou aquilo lindo, a dona da casa diz que aquela é a Bíblia do marido. Logo:

Veado no filme = salmos, natureza, pureza, liberdade.

Tem mais essa ainda: o cervo sinaliza a mediação entre o céu e a terra. -> Nome do filme? All That Heaven Allows (Tudo que o céu permite).

Fechando (mixando palavras de minha consciência, conhecida como Léo), Douglas Sirk exibe um tipo de reação contra a sociedade capitalista que estava sendo desenvolvida e deixa a personagem do Rock Hudson quase como um visionário. Afinal, ele influencia as pessoas a darem importância ao que realmente importa e deixar de lado o resto.

Por que somos tão tapados?


Para os significados, foram utilizados o Dicionário de Símbolos na Arte, de Sarah Carr-Gomm e o Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (que, aliás, já passou da hora de ser reeditado... está em falta nas livrarias há anos :/).

2 comentários:

Leonardo disse...

sua análise ficou ótima, e tornou o filme ainda mais interessante. é curioso como uma obra que inicialmente pode ser considerada clichê se torna extremamente consistente quando os detalhes são observados. isso faz com que o cinema de Sirk seja ainda mais especial.
não tinha feito a ligação entre o símbolo do veado e o título do filme, e me senti meio estúpido por isso.

por favor, continue fazendo estas análises e postando aqui PORQUE EU TÔ AMANDO!


(p.s.: dei uma olhada pela internet e nosso box do amor custa por volta de R$ 150,00. ou seja, o povo da fnac tá enlouquecendo e eu os amo por isso)

Emanuela Barisan disse...

é sempre um longo e doloroso engendrar. muito obrigada pela ajuda e por me inspirar, seu lindo!

e eu tenho certeza que a fnac tá surtando. o valor que a gente pagou é o preço de UM filme, não de 4.

<3

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