segunda-feira, 11 de abril de 2011

desculpem-me o sentimentalismo

Eis que ano passado decido estudar História da Arte e fazer algo de prazeiroso na minha vida. Entrei nessa meio incerta, porque apesar de gostar muito, não conhecia nada, mas algo no primeiro dia de aula me fez sentir tão bem naquele grupo, que tive certeza: estava passando a fazer parte de um grupo especial. Me senti bem, e contei a todo mundo.

Principalmente, falava sem parar sobre como um corpo tão frágil abrigava uma mente tão excepcionalmente ágil e carregada de conhecimento. Essa mente me ensinou a ver beleza desde Michelângelo até Bispo do Rosário. Me deu um tapa na cara quando ela, uma senhora, bradou: "Grafite é arte, sim. É uma forma de expressão, é um grito de socorro." Me ajudou a enxergar coisas que eu não via.

Sofrendo para apreender Bauman, a liberdade, a pós-modernidade, Deus... Completamente em conflito, lhe escrevi em desespero. Sua simples resposta foi:
LI SUA AFLIÇÃO. GOSTARIA DE CONVERSAR COM V. NÃO FALTE À AULA SÁBADO. MARCAREMOS UM ENCONTRO. (...) POR FAVOR ME PROCURE.   IRACEMA
Assim, ela abriu suas portas. E nem sabíamos o tanto que tínhamos em comum. Foram muitas horas em que conversamos e trocamos filmes e ideias sobre Tarkovsky, Hitchcock, Bergman, Marilyn Monroe (que ela não ligava, mas eu insistia em falar), sobre relacionamentos, sobre pais, sobre Deus. Sobre vida. Em um desses encontros, ela apertou minha mão bem forte e disse à Irmã Terezinha: essa aqui já entrou pra listinha... de pessoas que guardo aqui (aponta pro peito).

Acima de toda a sabedoria intelectual (que tive o privilégio de ouvir-lhe espalhar), a Irmã Iracema Noêmia Farina (que sempre brigava quando não chamávamos o 'colega' pelo nome), ensinou a mim e, pela quantidade de gente lamentando sua falta abismal, a muitos a amar. E mudou a minha vida de um jeito que nunca poderia ter imaginado quando adentrei aquele colégio pela primeira vez.

Obrigada pela sua existência. Obrigada pelo doce sorriso sempre. Obrigada por fazer parte da minha história.
Ir. Iracema e Ir. Terezinha
"ela se foi para tornar-se uma estrela, junto de Deus"

7 comentários:

Meire disse...

Fui aluna da irmã Iracema, de início foi uma relação de amor e ódio, depois, muita admiração e respeito.
Grande perda!

Lucilene disse...

Amo-a profundamente, e tenho uma gratidão que de tão grande é impossível expressar... devo a ela todo o meu conhecimento, todo o meu entendimento... tudo o que sei de teoria da arte... e da arte de viver... de ser bom e de ser digno...

Driarte - Mundo Digital disse...

Existe amor em tudo que faço, não importa o setor que eu esteja. Irmã Iracema, tão íntegra, generosa, idealista. Aprendi a admirar a grandeza dessa mulher guerreira, que defendia seus alunos a qualquer custo. Tudo que sei sobre arte e vida, agradeço a ela do fundo do meu coração. Um artista tem que acreditar no seu sonho, e mergulhar de corpo e alma em busca do seus ideais. Te amo muito...tu és uma obra-prima...seu legado estará vivo...como dizia: somos semeadores de conhecimento.

Tati. disse...

Qualquer palavra que eu diga nunca explicará o sentimento pela falta de Irmã Iracema, minha Mestra!!!!
Amo-a de todo meu coração, obrigado por fazer parte de minha vida, sempre com esse jeito sério,mais meigo, me ensinou tudo que sei sobre arte, e muito mais, a ser uma verdadeira Cristã, sempre generosa, uma verdadeira revolucionária, guerreira e acima de tudo MULHER, exemplo para ser seguido por educadores e todos, que desejam ser o melhor em suas areás fazer o que gosta e com amor, amor até o fim!!!!
Está plantada a irmã pequeninha, vai florescer com sua vida linda em outro jardim.
IRMÃ IRACEMA ESTÁ VIVA em nós!!!!
e intercedendo por nós!!!!

Anônimo disse...

Há 5 anos , me apresentaram a Irmã. Foi amor a primeira vista, ficava facinada com todo o seu conhecimento e força de viver, nunca a vi desanimada, sempre lutando para fazer o que gostava. Eu a amo profundamente e admiro-a e como meu marido diz devemos agradecer por ter tido o previlégio de te-la conhecido e vivido com ela. Me amargura saber que não a teremos mais, fica a lembrança da sua presença e a saudade que será imensa, queria ter estado com ela a muito mais tempo, sorte de quem a conheceu e pode desfrutar da sua companhia, agora só muita saudade......

Mª Antonia

Lucia disse...

Querida irmã Iracema
(19/01/1920 - 09/04/2011)
Obrigada por fazer do aprendizado não um trabalho, mas um contentamento.
Por fazer com que nos sentíssemos pessoas de valor;
Por nos ajudar a descobrir o que fazer de melhor e, assim, fazê-lo cada vez melhor.
Obrigado por afastar o medo das coisas que pudéssemos não compreender; levando-nos, por fim, a compreendê-las...
Por resolver o que achávamos complicados...
Por ser uma pessoa digna de nossa total confiança e a quem pudemos recorrer quando a vida se mostrava difícil...
Obrigada por nos convencer de que éramos melhores do que suspeitávamos.

Amamos você, por isso viverá para sempre em nossos corações!
Lúcia e Família

Anônimo disse...

Olá...saudações... achei este texto por acaso, logo me vi, como muito raramente, sem a necessidade de explicar, ou tentar mostrar, o que foi e o que mudou na minha vida, depois da amizade da Mestra, amiga, Ir. Iracema... essa saudade nunca se foi... me conforta, o mundo no qual fui imersa para toda a vida. Quando me falta a luz é este "universo" que me encanta... Lembranças...Lembranças...
Nos dias de aula de Arte, eu chegava mais cedo, me sentava no chão, de frente para a sala de aula e ficava ouvindo meus fados, minhas músicas celtas... como se estivesse me preparando para um ritual... no dia em que ela se foi... na mesma tarde, corri para a faculdade para esperá-la, pela última vez, os corredores estavam escuros, me sentei da mesma maneira, desta vez, sem os fones, desorientada, mas não para uma aula, era pela última vez... Naquele dia, meu sol não nasceu...

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